O drama para educar financeiramente alguém passa por limites da própria ineficiência da educação. “Somente 4,6% dos adolescentes terminam o ensino médio sabendo as operações básicas de matemática”, completou Dimenstein.
O problema vai além: a maioria da população não sabe gastar e a classe C – a mais endividada – não se assume como tal. “A tendência é o consumidor achar que só está endividado quando não consegue arcar com suas dívidas”, complementou Dimenstein.
Para Alzira Silva, técnica em planejamento e gestão do MEC (Ministério da Educação) concordou e explicou sobre o novo projeto de formar uma cartilha para ser difundida nas escolas públicas. “O projeto foi iniciado há três anos e, mesmo com a união de quatro instituições renomadas ainda está em andamento”.
Ela se referia a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Banco Central do Brasil, Susep (Superintendência de Seguros Privados) e Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar) que auxiliam na ampliação do programa e a formar um conteúdo adequado à linguagem. “Os assuntos não são interligados com a realidade do povo brasileiro”, disse Alzira.
Além disso, o outro problema é que o professor mesmo recebendo o material, tem de ser treinado para aplicar aquilo ao aluno. “Ele tem dificuldade e deixa o material de lado”, acrescentou Alzira. A demora para que isso seja aplicado está justamente na avaliação do MEC para que o material não seja dispensado.
Uma ação exemplar, mas como um trabalho de formiguinhas, foi a da Mastercard. A empresa reuniu os moradores da favela de Paraisópolis em São Paulo para ministrar a educação financeira na comunidade. Assim, perguntou o que eles gostariam de saber e levou os assuntos direcionados.
“Descobrimos que o interesse deles envolviam assuntos como, oportunidades de emprego, como ganhar mais dinheiro, mercado de trabalho em geral e até empreendedorismo”, contou Andrea Denadai, diretora de comunicação corporativa da Mastercard.
Provocações
A jornalista Ângela Crespo colocou fogo no debate. “Cadê a urgência toda em fazer esse material chegar à população? Cadê a responsabilidade das empresas quanto ao crédito fornecido? E porque o profissional de banco, por exemplo, tem metas abusivas e é obrigado a vender mais e mais serviços sem educar o consumidor? Eu não vejo isso, não sinto”, desabafou.
Denise Hills, superintendente de sustentabilidade do Itaú Unibanco disse que a instituição tem uma grande responsabilidade na educação financeira de seus clientes. Para tanto, o banco investe em cartilhas e sustentabilidade para todos os públicos. “Entretanto, sei que isso não chega a todos”, disse.
Tudo porque o consumidor brasileiro não tem a cultura da educação financeira. “Ninguém vai a uma lan house para acessar ao site da Febraban e consultar a cartilha. Vai para entrar no orkut, nas redes sociais”, complementou Ângela.
“O brasileiro tem uma relação complexa com o dinheiro, pois gasta como se fosse morrer amanhã e vive como se fosse durar para sempre”, brincou Denise. Para Fernando Blanco, presidente do IDCC (Instituto para o Desenvolvimento da Cultura do Crédito) o problema também é que as instituições se preocupam demais com os acionistas, empresários e deixam de lado a educação financeira. O povo é o último da fila.
José Alexandre Vasco, superintendente de proteção e Orientação a Investidores da CVM acrescentou que outro problema envolve o planejamento financeiro de cada um. “O brasileiro só tem educação financeira quando começa a planejar como vai ser a educação dos filhos, quando vai casar, quando quer comprar uma casa e nunca para fazer uma reserva”, disse.
Entretanto, os processos de aprendizado são recentes em todo o mundo. “Europa. EUA, mesmo os países mais desenvolvidos, quando se veem em mals lençóis como aconteceu com a crise mundial, não sabem lidar com o dinheiro”, disse João Evangelista de Souza Filho, chefe de divisão do Banco Central do Brasil. “Sair na mídia que a Selic subiu hoje (28) 0,75% não diz nada para muita gente”, finalizou.