Se há dez anos o Brasil sucumbia às crises mundiais, desta vez passou praticamente ileso ao tremor econômico nos EUA e quase não percebe as influências negativas vindas recentemente da Europa. “Antes as crises de crédito no País eram causadas por causa da volatilidade. Diminuía o PIB e por consequência a capacidade de pagamento. Tudo mudavam e as pessoas não tinham como pagar. Hoje o Brasil não é mais volátil, tem também uma ótima regulação financeira”, defende Maílson.
Ricardo Amorim também acredita na consistência financeira atingida nos últimos anos. “Tem uma bolha de crédito e vai estourar, provavelmente no setor imobiliário. Mas não agora, talvez nos próximos 10, 20 anos”, afirma Amorim. Enquanto o crédito imobiliário representa apenas 3% no Brasil, nos EUA atinge a marca de 80%. “Nós conseguimos este boom com apenas 3%. Ainda é muito pequeno. Mas estamos emergindo. Há 25 anos o nosso índice de crescimento era menor do que a média dos outros países. A água subia e nós conseguíamos acima de nós. Hoje não é assim...”, conclui.
Ordem na casa
“Se a Selic crescer muito, pode desarrumar a casa. O que temos de fazer é administrar o nosso vulcão. Estamos numa espiral positiva. E vamos, sim, chegar a ver o Brasil como um país desenvolvido. Não é um horizonte longe”, afirma George Vidor. Na última quarta-feira, 28, o Banco Central e o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciaram o aumento da taxa de juros em 0,75%. Nenhum dos palestrantes criticou a medida.
Entre eles houve o consenso, o Brasil cresceu acima da média e se o BC não intervir a economia continuará desequilibrada, com risco alto de inflação desenfreada. “Temo que se não soubermos cuidar desse vulcão não vamos conseguir crescer o quanto podemos. O mercado financeiro sacou o risco da inflação e agiu. Se o BC não tivesse feito nada, acredito que a profecia se realizaria”, diz Vidor.
Para Maílson, o Brasil acerta em ter um órgão centralizado nas questões de regulação financeira. Seguir o exemplo dos EUA, onde as tarefas são subdivididas entre órgãos, seria um erro. “Os EUA é uma colcha de retalho. Aqui temos um regulador muito competente. Não entramos na loucura de divisão. E se entrarmos na onda americana de não regulamentar o mercado, poderemos sim acreditar numa crise séria”.
Próximas eleições
Apesar do receio em por fim aos programas assistenciais, a base sólida da economia brasileira não será abalada com os planos do futuro (ou futura – Miriam Leitão fez questão de comemorar a presença feminina de peso no pleito) presidente. Maílson defende que até mesmo a taxa de juros deve seguir em alta, apesar das eleições. “O Lula sabe que para manter a popularidade é fundamental manter a estabilidade”. A mediadora Miriam Leitão complementou a discussão: “O que realmente incomoda a população é a inflação, o juros gera uma conversinha, mas não tanto quanto o medo da inflação”.
Para eles a mudança no governo não deve ser tão drástica, assim como as dúvidas existentes durante a transição entre FHC e Lula não será carregada ao próximo pleito. “Não vejo risco nenhum. O percentual de incógnita é muito pequeno”, afirma George Vidor. “O Brasil caminha para que suas instituições definam os rumos e não os presidentes. Não vai gerar uma ruptura tão grande”, completa Maílson.
Ricardo Amorim acredita que os dois candidatos com mais chance de vitória são extremamente parecidos. “Mesmo analisando sob o ponto de vista político não são diferentes, e não será instável. As mudanças serão muito menores”.
Apesar de algumas ressalvas preocupantes, os economistas veem o futuro brasileiro de forma positiva. Entre os riscos a serem evitados, destacam a taxa de câmbio. “Temos de ter nossa própria regulamentação de câmbio. O País cresce e deve continuar crescendo. Nós fazemos acontecer, por isso manter um câmbio flutuante é extremamente importante”, diz Amorim. George Vidor e Maílson também não veem riscos sérios à estabilidade econômica. E Amorim lança um dado animador: “Se continuarmos crescendo no ritmo que estamos desde 2007, e o resto da economia mundial também, nos próximos anos serão, nesta ordem: China, EUA, Japão, Índia e Brasil”.