Uma dona de casa olha a vitrine de uma loja de uma grande rede varejista. A promoção da geladeira em oito vezes sem juros a atrai. Ela entra na loja, compra o produto no carnê, adquire uma garantia estendida e ainda contrata um plano odontológico, a qual foi convencida pelo vendedor que, um dia, lhe seria útil e vantajoso. Não há dúvidas de que o varejo brasileiro hoje é um importante fornecedor de produtos e serviços financeiros, principalmente para a chamada classe desbancarizada. Mas é preciso atuar com ética e orientar o consumidor no uso desses serviços, principalmente quando se trata de crédito.

Executivos debateram na manhã desta quinta-feira (02/06) o tema “Instituições financeiras e o comércio varejista. Como promover uma aliança sustentável em prol do consumidor?” no Congresso Consumidor Moderno de Crédito, Cobrança e Meios de Pagamento (CCMCC), mediada pelo coordenador do núcleo de estudos do varejo da ESPM, Ricardo Pastore. “O tripé fornecedor de crédito, varejo e consumidor está formado. Quem prestar o melhor serviço de crédito no varejo tende a atrair mais clientes”, avalia ele.
Nessa conversa, os shopping centers, pontos estratégicos para o setor varejista não podem ser esquecidos. Nabil Sahyoun, presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), lembra de pesquisa recente realiza pelo Ibope que aponta que são 766 shoppings em funcionamento no Brasil e mais 124 em construção. Neles, cerca de 75% das lojas são de pequenos empresários – que possuem, em média, seis ou sete lojas. “Entendemos que sem esses empresários não haveria shopping centers”, ressalta o executivo. Hilgo Gonçalves, presidente da Losango, concorda: “A sustentabilidade e o crescimento País depende do pequeno varejo. O pequeno de hoje será o grande de amanhã”.
No levantamento, diz Nabil, com aproximadamente 45 associados, os serviços bancários estão melhores que no ano passado e o internet banking foi julgado como um canal que facilitou a vida dos lojistas, inclusive reduzindo seus custos. Já do ponto de vista do empréstimo, os pequenos empresários continuam se queixando das altas taxas de juros.
O setor cresce. Desde 2007, os shopping centers que fizeram Ofertas Públicas Iniciais (do inglês, IPOs) na BM&FBovespa levantam mais de R$ 6 bilhões utilizados para financiar a sua expansão, além da criação de novas unidades. Nelson Felipe Kheirallah, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), coloca que na visão da associação o pequeno varejista precisa ter o suporte necessário para crescer e resolver os seus problemas.
Eduardo Halsel, diretor da Cielo, coloca que o Brasil tem vive um momento muito rico. Com isso aumentou o consumo das famílias e o crédito, com volume ofertado para pessoa física no ano passado 26% acima do anterior. Nessa onda, o mercado de meios de pagamento cresce de maneira agressiva nos últimos anos, com a substituição do cheque e dinheiro pelo cartão. “O pagamento eletrônico em 2010 foi 25% de todos os efetuados”, ressalta, completando com o dado de que a Cielo é líder no mercado de credenciamento de cartões, com 55% de market share.
Ética no centro dos negócios
Selma do Amaral, diretora de atendimento a clientes do Procon de São Paulo,concorda que o varejo é um canal importante para levar ao consumidor uma série de serviços, mas assegura que nas alianças entre bancos e lojistas há uma série de distorções. Com isso, o vendedor de um produto se torna também um vendedor de apólices, cartões de crédito e outros serviços financeiros. “Assim, o consumidor fica com uma diversidade de contratos de naturezas diferentes e quando vai usá-los se depara com regras, como por exemplo, o seguro que não cobre o uso indevido do produto, que é uma classificação subjetiva. É preciso repensar formas de corrigir as informações dos contratos deixando-os mais claros”, aponta.
Para o presidente da Losango, braço de varejo do HSBC – com 22% do mercado de crédito direto ao consumidor (CDC) – o País é um shopping Center. Por isso, segundo ele, a empresa se reinventa, a cada dia, na missão de colocar o cliente no centro de tudo. A financeira criou um portal para treinar cerca de 20 mil lojistas via e-learning para educar o consumidor no ato da compra a fazer o uso consciente do crédito. “Temos que cuidar bem desse consumidor”, fala Gonçalves.
A frase citada por ele é tão séria que ele afirma que o número do seu celular está exposto nas lojas e caso ninguém consiga resolver o problema do cliente, o mesmo pode acioná-lo. “Se um estabelecimento parceiro não está de acordo com a nossa ética de respeito ao consumidor, vamos descredenciá-lo, mesmo que financeiramente nos seja ruim”, diz.