Gestão de crédito e cobrança: modelos e tendências
No painel “Gestão de crédito e inadimplência em um período de incertezas”, realizado no final da tarde do primeiro dia do Congresso Consumidor Moderno de Crédito, Cobrança e Meios de Pagamento (CCMCC), foi feito um retrato das melhores estratégias usadas pelas empresas para o acesso ao crédito em suas diversas formas e também os melhores modelos de gestão de recebíveis diante do aumento da inadimplência.
Fernando Brasileiro, diretor-presidente da Cibrasec, abriu o debate comentando sobre o mercado de securitização e o segmento imobiliário. “Os últimos três e quatro anos tem sido de ouro para o mercado brasileiro. E especificamente em relação ao setor imobiliário, as práticas no Brasil são muito diferentes das usadas em outros países”, disse. “99% do faturamento imobiliário no país é feito por bancos e nos Estados Unidos, mais de 60% é por investidores, pessoas físicas, fundos de pensão etc. Razão pela qual a crise se alastrou por lá e não aqui”, completou.
Além disso, as práticas de concessão de crédito também diferem, sendo que no mercado americano a concorrência entre empresas torna os processos de concessão mais agressivos, enquanto que no Brasil as empresas são mais conservadoras.
O fato é que aqui, a instabilidade econômica afeta de maneira diferente a variados setores. “Vemos que há uma retomada do crescimento em segmentos como o de veículos e pequenos negócios”, falou Simone Trocoli, gerente especialista em cobrança do Serasa Experian. “E em contra-partida, há setores que carregam a inadimplência. Observamos 22% de aumento da inadimplência de fevereiro deste ano pra cá”, completou.
Simone acredita que o crédito no Brasil ainda não chega para todas as camadas da população, enquanto outras classes são sobrecarregadas pela oferta. “E o cadastro positivo é o grande diferencial a explorar e o caminho para levar o crédito às classes mais pobres, à baixa renda que ainda não tem acesso”, apontou.
O cadastro positivo também pode ser fonte de conhecimento sobre o consumidor. “Houve um crescimento na concessão de crédito para a classe C, mas não conhecemos muito bem esse público. Com o cadastro positivo poderemos entende-lo melhor, sua capacidade pagamento etc”, disse Simone.
Segundo Adalberto Savioli, presidente da Acrefi, ainda existem órgãos no país que não vêem o cadastro positivo com bons olhos. “Mas vale considerar que 9% da população que toma crédito se torna inadimplente. Do 91% restante não se sabe nada a respeito e é nesse grupo que devemos investir. Eles, que são adimplentes, acabam pagando taxas mais caras por causa dos 9% inadimplentes”, explicou.
Em relação ao crédito comportamental pouco foi desenvolvido. “O que há são scores e o cadastro positivo pode contribuir para a área comportamental”, apontou Savioli.
Mudanças e oportunidades
“A crise é uma oportunidade de reflexão e de mudar paradigmas, rever o negócio e trazer coisas novas, como o cadastro positivo, e também na área de cobrança”, acrescenta Gina Marques, diretora de recuperação de crédito e cobrança da Contax.
A executiva exemplifica: “cobrar ficou mais caro e uma tendência nesse momento é manter o cliente inadimplente na base, pois isso é menos custoso do que adquirir um cliente novo; então, começa-se a pensar em alternativas para oferecer a esse consumidor”.
O Esplanada é uma rede de varejo localizada no Nordeste, Centro-Oeste e Brasília, cujo braço financeiro é o cartão de crédito – são mais de dois milhões de plásticos da rede no mercado.
“No começo da instabilidade, em relação ao crédito seguimos a cartilha e começamos, por exemplo, a pedir mais documentos dos clientes e a restringir a concessão, aprovando 45% das solicitações. Mas com esse modelo, no último trimestre, aprovamos só 18%”, contou Paulo Pio, diretor administrativo do Esplanada.
De acordo com Pio, o setor financeiro fez o que tinha que fazer e o varejo começou a cobrar uma mudança, já que 80% das vendas são feitas a crédito. “Resultado: fomos atrás do bom cliente, que já tinha crédito, e aumentamos o limite dele ou demos brindes e descontos para uma nova compra. Além disso, para quem apresentasse a fatura do cartão de crédito de qualquer outra bandeira, dávamos R$ 150 de limite, sendo que a média é de R$ 115”, explicou.
“Nosso consumidor vem da classe B, C e D e só usa crédito. Ele gosta de ser bem tratado e quando você aumenta o limite dele, ele responde bem”, contou Pio. “Ele tenta preservar o limite dele e por isso, fica adimplente”, acrescenta.
De acordo com o diretor administrativo do Esplanada, a inadimplência na rede está sob controle. “Chegou a 16% da carteira, mas agora voltou a 8%”, disse.
No caso da Ticket, o relacionamento acontece com empresas. “Apesar disso, atingimos o consumidor final. São mais de dois milhões de plásticos usados pelos funcionários das companhias”, apontou Gemerson Bertin, executivo da Ticket. “E nesse momento de crise, o mais importante é saber em que grau de maturidade a empresa está para poder discutir crédito com ela”, acrescentou.
O outro lado da moeda
O segmento de cobrança vive um momento de profissionalização e de expansão. “Cobrança hoje é centro de resultados; houve uma grande evolução e profissionalização”, definiu Savioli.
O desafio do setor está em gerar inteligência, informações que sejam relevantes ao negócio das empresas, e não simplesmente recuperar valores.
| < Anterior | Próximo > |
|---|
Newsletter
Depoimentos
Simone Trocoli, Serasa Experian
O CCMCC traz palestras com conteúdos muito interessantes, como a questão do microcrédito que é um tema pouco explorado e é o que vai sustentar boa parte do crescimento do PIB neste ano. Discutir temas como esse nos levam a sair do quadrado, da mesmice.
Simone Trocoli
Gerente Especialista em Cobrança da Serasa Experian
Franck Vignard, Cetelem
Ivo Luiz Vieitas Jr, Hipercard
Lola Oliveira, ACSP
Crédito e cobrança é um assunto que deve ser discutido sempre, independentemente do momento econômico vivido no País. O que muda conforme o ambiente é o enfoque que se dá a determinados tipos de estratégia de crédito ou de cobrança.
Lola Oliveira
Gerente de procedimentos e modelos analíticos da ACSP
Ricardo Terenzi, Banco Itaú
O CCMCC... é da maior relevância... O Brasil tem desempenhado muito bem suas atividades em reagir a essa crise, e você fazer eventos como esse, que tragam essa discussão, reflexão, esse olhar diferenciado, para fazer disso um processo de aprendizado muito forte.
Ricardo Terenzi
Diretor de Relações Institucionais do Banco Itaú



