De devedor a credor: o cenário pré e pós-crise no Brasil
Para os jornalistas econômicos Ricardo Amorim, George Vidor e Carlos Sardemberg, a conclusão é unânime: o Brasil está mais estruturado para enfrentar crises e as economias mundiais devem voltar a crescer gradativamente a partir do segundo semestre deste ano, e nem de longe vai lembrar a mesma velocidade dos anos anteriores.
Na opinião de George Vidor, o Brasil mudou significativamente nos últimos 20 anos sob o ponto de vista macro e microeconômico. “Pela primeira vez, desde Dom João VI, o câmbio, que é nosso calcanhar-de-aquiles, não está empurrando o País para o precipício. Hoje temos US$ 200 bilhões de reserva externa, US$ 70 bilhões de dívida externa – algo que o governo consegue administrar positivamente, e a dívida atrelada ao câmbio desapareceu. O Brasil se tornou credor ao invés de devedor”, explica.
“Faz tempo que dizem que o consumidor americano vinha se endividando. Estava dando certo levar a coisa da forma como estava sendo conduzida, até que deu essa confusão do subprime e tirou o trem dos trilhos. O mundo não pode acreditar que vai viver do excedente do consumo americano”, aponta Carlos Sardemberg. E agora deve acontecer o efeito inverso. “Enquanto que os Estados Unidos tem que aprender a poupar, já que é um tradicional gastador, a China deve aprender a gastar, já que é uma tradicional poupadora e divide o bolo somente depois de vê-lo crescido. Como o mundo vai sair dessa, já que o consumo chinês não substitui o americano?”.
Segundo ele, o Brasil chegou atrasado na “festa”. “Quando o país entrou na festa, os garçons já estavam levando a bebida embora”, brinca. “Quando se olham todos os indicadores, nota-se uma melhora nos números do Brasil. Um dos segmentos que ilustra este fato é o varejo, apesar de não registrar os números estrondosos obtidos em 2008. A diferença é brutal. O nível de empregos aos poucos também retoma seu crescimento. O que acontece é que antes o Brasil estava crescendo em velocidade de F-1 e agora está andando como um calhambeque”.
“O que se viu foi a saída de investimentos americanos para outros países. Em função das perdas, os americanos foram buscar a repatriação de capital. Não vejo como o consumidor americano vai voltar ao shopping. O crédito foi o grande motor de consumo, em parte pelo financiamento imobiliário”, contrapõe Ricardo Amorim.
Outro aspecto levantado por Amorim diz respeito à explosão do consumo da baixa renda. “Houve uma expansão na produção de produtos voltados para a baixa renda. Ao longo desse caminho, a renda dos brasileiros elevou positivamente, além de projetos sociais como Programa Bolsa Família. Tudo isso veio para ficar”. Para se ter uma idéia, 40% da renda dos brasileiros se concentra na classe C.
Para o especialista, o mundo vai crescer menos e de forma diferente. “Cerca de 70% do Produto Interno Bruto mundial vem de países emergentes. Hoje o Brasil se iguala ao Japão”, afirma.
Porém um dos entraves na economia brasileira é o spread bancário. “Neste ano, talvez pela primeira vez, tenhamos uma taxa de juros básica de 10% ao ano. Por outro lado, uma pressão da sociedade em relação a uma maior transparência dos bancos sobre a necessidade de diminuição dos spreads bancários toma força. A inadimplência e os empréstimos não justificam mais o spread no Brasil”, aponta Vidor.
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